A Mentora

Era uma vez, na aldeia Namuli, uma criança de 6 anos de idade, chamada Analuz, foi forçada pelos seus pais, a casar com Aduberto, um idoso, mais velho que o pai dela.

Sim, cumprindo um hábito da aldeia, os pais encurtaram as etapas da infância e adolescência da criança, para torná-la adulta. 

Então, foi ao lar, onde ocupou a quinta posição, na ordem de sucessão das esposas de Aduberto, com tarefas que iniciavam de madrugada e cessavam à noite.

Certa vez, numa das raras visitas da mãe, Analuz perguntou a ela: mãe, hoje você veio buscar-me?
A mãe ajeitou-se e disse: filha, desde que casaste, aqui é a tua casa. Eu não posso mais te levar de volta. Só posso vir visitar-te. 

Trémula, a Analuz retorquiu: mãe, aqui não me deixam brincar, sou a besta da casa. Leva-me consigo, por favor.

Calmamente, com a voz da experiência, a mãe respondeu: minha filha tenha paciência. Não há nada que o tempo não cure. Eu passei por isso e, mesmo assim, estou aqui. Sou tua mãe e tu terás os teus próprios filhos e irás compreender a vida.

Mas, Analuz continuou a questionar a mãe por alguns anos e a resposta não mudou.

Seguindo a tradição, na noite anterior ao nono aniversário da Analuz, a primeira esposa do Aduberto chamou a menina para uma sessão de iniciação e disse-lhe o seguinte: a partir de amanhã tu serás uma verdadeira mulher, como nós. Com efeito, quando o sol for descansar, tu deverás colocar um lençol branco, na cama do teu marido e lá te deixarás estar, à espera dele, para te entregares como um presente. Entendeste?

Trêmula e confusa, Analuz, respondeu positivamente.

Na manhã seguinte, desesperada, Analuz dirigiu-se à casa da anciã mais respeitada da Aldeia. Chegado lá, disse: avó, preciso da sua ajuda. Só você pode tirar-me deste pesadelo. Ajuda-me, por favor.

Em quê te posso ajudar? Perguntou a anciã.

Soluçando, Analuz disse: hoje completo 9 anos de idade, avó. Na sequência, ontem disseram-me que quando a noite chegar, eu devo oferecer o meu corpo a Aduberto. Mas eu não estou preparada. Por várias vezes pedi a minha mãe para me tirar daqui e ela sempre aconselhou-me a ter paciência, porque o tempo cura tudo. Porém, o tempo só me traz dor. Eu preciso seguir o meu próprio destino, o quanto antes. Ajuda-me, por favor!

Que ajuda, em concreto, você quer? Retorquiu a anciã.

Não sei. Mas esta vida que levo não é o meu destino e preciso mudar. Não posso esperar pelo tempo, ele está a ser cruel comigo. Concluiu, a Analuz.

A anciã levantou-se e, com o seu bastão, escreveu o número 6 no chão. Em seguida, pediu à Analuz para se posicionar num dos extremos do número. Ela procedeu conforme o pedido.

Que número está a ver? Perguntou a anciã à Analuz.

9, avó! Respondeu, emocionada, analuz.

Agora, passa para o outro extremo e diga-me, que número você está a ver? Insistiu a anciã.

Espantada e quase muda, Analuz disse: 6, avó. 

O que isto significa para ti? Perguntou a avó.

Uau! Mudei de posição, mudou a minha realidade. Que fantástico. Então, esperar a noite ou seguir o meu destino é uma escolha, avó. Isto significa que eu sou quem tem que decidir sobre o meu destino? Perguntou Analuz.

O que preferes, ao invés disso? Respondeu a anciã com outra pergunta.

Decidir. Afirmou Analuz.

Diante disto, o que queres fazer? Perguntou a anciã.

Partir para bem longe, antes de a noite chegar, para onde posso decidir sobre o meu destino. Respondeu a Analuz.

O que ganhas com isso? Insistiu a anciã.

Liberdade! Liberdade para escolher o meu destino. A liberdade traz felicidade e eu quero ser feliz. Disse, Analuz.

O que te pode impedir de seguir o teu destino e seres feliz? Perguntou a anciã.

Nada, avó. Vou já pegar o dinheiro que amealhei e partir. Antes vou ao padre pedir que me indique um lugar seguro onde possa estar. Respondeu Analuz, dando um forte abraço à anciã e saiu disparada.

A caminho de volta para casa falou com o padre, quem lhe deu referências e dinheiro. Depois foi a casa preparar os bois, a carroça e os tambores para ir cartar água, na fontenária que fica perto da estação de comboios.

Quando ia sair, inesperadamente, a segunda esposa do Aduberto ofereceu-se a acompanhá-la à fontenária. Oferta estranha, pensou Analuz. Mas, lá se foram. 

Enquanto enchiam os tambores, o comboio chegou. Nesse instante, Analuz disse à sua acompanhante que ia à estação ver o comboio e regressava de pressa. Lá se foi. Disfarçada, comprou um bilhete e ao apitar do comboio jogou-se dentro de uma carruagem e partiu sem ser vista pela acompanhante.

A segunda esposa do Aduberto, encheu os tambores e esperou pela Analuz, até ao pôr-do-sol, quando decidiu regressar à casa e anunciar o desaparecimento da menina. 

A notícia caiu como uma bomba, na casa do Aduberto. A segunda esposa foi acusada de conivente e, pelo facto, castigada. 

Na manhã seguinte, Aduberto e os pais da Analuz encetaram buscas, sem sucesso, na região.

No terceiro dia, tomaram o mesmo comboio e foram à cidade procurar pela menina. Mas a sorte não os acompanhou. Regressaram a casa, depois de uma semana de buscas, feitos heróis de batalhas perdidas.

Analuz deixou o comboio a meio do caminho da cidade e dirigiu-se a um convento, contou a sua história e pediu que a acolhessem. O que foi aceite.

 Volvido algum tempo, foi transferida para uma ordem religiosa, que ficava bem distante de Namuli, e permaneceu até concluir a licenciatura em serviços sociais. 

Enquanto estudava, Analuz angariou dinheiro e investiu na construção de uma escola, na sua aldeia, que foi inaugurada no dia em que ela regressou à Namuli.

No dia da inauguração da escola, a aldeia amanheceu cheia de cores e alegria. Ninguém associava a obra com Analuz que, entretanto, tinha crescido bastante, de modo que, durante a recepção, abrilhantada por cantos e danças, ninguém a reconheceu. Nem se quer, durante a missa de bênção da escola.

Mas, o inevitável estava por vir. Quando o superior da ordem missionária estava a narrar a história da origem do projecto que deu lugar à escola disse: hoje é um dia grande para esta aldeia porque concretiza-se o sonho de uma menina que nasceu nesta aldeia. Se não fosse ela, esta escola não seria inaugurada hoje. Fez pausa longa e depois disse: dar uma escola a uma aldeia é colocar uma vela nas mãos de cada um de vós, para que ilumine o caminho que escolher e alcance o seu destino. A mentora desta ideia escolheu o seu caminho e o seu destino que é educar as crianças desta aldeia, para que possam ser livres e felizes…os presentes desataram a bater palmas e em pé, a cantar cantos de agradecimento.

Nesse instante, o superior convidou a Analuz para se colocar em pé. Ela levantou-se. O superior disse: é com muito prazer… nesse momento, a anciã mais respeitada da aldeia gritou: muito obrigado Analuz, hoje conquistaste a liberdade. A multidão emudeceu por um instante e o silêncio foi quebrado por choros e cantos de exaltação. Incrédulo, Aduberto, desmaiou em meio à multidão que cantava e dançava.


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